18/08/2009

Você conhece a Rede Mocambos????

A Rede Mocambos é uma articulação de comunicação afro indígena nacional para fortaleciemnto das comunidades e grupos, revisão afro política e empoderamento dos seus membros, tem um foco importante em tecnologia afro digital.

Nós somos Rede Mocambos e queremos te dizer:

- Conheça!
- Participe da lista!
- Participe da rede!
- Revolucione conceitos, práticas, pensamentos!

www.mocambos.net

Uma Rede de Comunicação Social

Baobab no Crepuscolo

É uma rede de comunidades quilombolas, indígenas, urbanas, rurais, associações da sociedade civil, pontos de cultura, oriundos de norte ao sul do país, conectados através das tecnologias da informação e comunicação. Para isso buscamos parcerias de diversos segmentos para que de forma colaborativa e coletiva possamos reunir diferentes programas, projetos e ações voltados para o desenvolvimento humano, social, econômico, cultural, ambiental e preservação do patrimônio histórico-memória dessas comunidades.

É uma rede solidária de comunidades, no qual o objetivo principal é compartilhar idéias e oferecer apoio recíproco. Os eixos principais que a Rede enxerga são a identidade cultural, o desenvolvimento local, apropriação tecnológica e a inclusão social. A idéia da Rede nasceu em quilombos, em particular em um quilombo urbano, a Casa de Cultura Tainã.

A identidade quilombola é uma raiz da historia do nosso povo e do nosso país, pois desde a época do Brasil Colonia contribuiu efetivamente para o crescimento econômico e social do nosso pais, mas foram sumariamente excluídos, e em sua maioria ainda são, da divisão da riqueza gerada por esse crescimento, como acesso a políticas públicas e direitos legais a propriedade das terras que são ocupadas por elas a diversas gerações. Portanto precisamos garantir as comunidades condições para se desenvolverem, tendo em conta a enorme divida histórica que o nosso pais ainda tem com elas, lembrando que são as comunidades que devem ter a liberdade de escolher o tipo de desenvolvimento que querem.

A tecnologia é uma frente de trabalho da Rede Mocambos, sendo ao mesmo tempo idéia e meio para transferir idéias. Isto é possível somente com uma real apropriação das técnicas e das lógicas, sem ser usuários passivos de algo já pronto, e que por si mesmo não é livre. Dentro dessa linha de pensamento consideramos que o uso e o desenvolvimento de Software Livre que já permite a criação e o compartilhamento entre nós e o mundo, através da Internet por exemplo, chegando a uma inclusão social auto-determinada nos moldes que a comunidade quer.

Querer escolher os próprios caminhos leva a Rede Mocambos a acreditar num modelo de cooperação que vê as comunidades procurarem apoio para os próprios projetos e não as ONGs e as instituições propor e implementar projetos dentro delas. Um primeiro grande apoio procuramos no Estado, que é o orgão responsável em garantir e facilitar os desenvolvimentos livres do seu povo, neste sentido procuramos apoio do governo para garantir o inclusão digital das comunidades. Um grande passo foi onde não tinha nem um orelhão, levar uma antena de acesso a internet via satelite, pelo programa GESAC do Governo Federal, ligar a luz e colocar as comunidades em comunicação na Internet.

Assim, decorre que é necessário entender a força da cultura dessas comunidades, valorizar os conhecimentos construídos em sua vivência e estimular a difusão de um olhar próprio que proponha o reconhecimento dessa cultura e direitos. Romper com a lógica da submissão a emissores de conteúdos é estratégico para que essas comunidades assumam um papel histórico de enfrentamento da informação globalizada e do sistema opressor e concentrador de riqueza e poder que restringem o desenvolvimento dessa população em nosso pais.

A REDE MOCAMBOS é um projeto da Casa de Cultura Tainã, sediada em Campinas

“Nós trabalhamos a questão da identidade cultural por meio das ferramentas tecnológicas. É muito importante para essas comunidades estarem incluídas socialmente e digitalmente. Assim, podemos ajudar a promover o desenvolvimento local” - Antonio Carlos (TC)


AGENDA QUILOMBO - Curso de Horticultura Orgânica

No dia 12 de Setembro de 2009 o Instituto Floresta Viva ministrará o I Curso de Horticultura Orgânica na Fazenda Quilombo D'oiti da Casa do Boneco, esse trabalho faz parte dos cursos que a Casa do Boneco tem promovido na implementação da fazenda, em especial do funcionamento do restaurante previsto para o final do ano.

O curso é aberto gratuitamente para a comunidade local.

As inscrições devem ser feitas na Casa do Boneco

Casa do Boneco ministra oficina de estética afro no Curso de Formação de lideranças quilombolas em Vitória da Conquista









Cantemos forte

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ilustração de Michael Thompson

Cantemos forte, levantemos um clamor pelos hutus e pelo tutis, achemos um africano em cada criança! Com microfones e pick-ups em punho, falemos alto contra o racismo, gritemos mais forte sobre nossa cultura! Mas que cultura? A prostituída, a cultura dos griots, a cultura hip-hop, a cultura Black, a cultura religiosa, a cultura branca, qual? Se não sabemos em que lado estamos, como vamos nos defender? Então, que a educação seja nosso grito de guerra, que esta possa ser grafitada em todos os muros, cantada pelo mc’s, discotecada pelos DJs, dançada pelos poppers, lockers e b.boys. Mas essa não pode ser uma educação formal, lápis e papel, mas que seja uma educação étnico racial! Cada militante e pessoa do hip-hop será um professor, um educador, resgatador da cultura de nossos bisavôs e bisavós, dentro de cada elemento encontraremos o antigo africano, não preso em grilhões e navios, mas livres, pelos rios do Congo, pelo reino de Ifé, pelos caminhos de Luanda, encontraremos bantos, Nagôs, mandingas, escondidos em cada novo artista do hip-hop, criança e adulto, homem ou mulher! Seus sorrisos serão mais brilhantes do que o sorriso de Ojun-orun, a cada movimento ou palavra dita, em novo Orixá se manifestará, independente da religião, pois o religare acontecerá!

arte por Michael Thompson

ilustração de Michael Thompson

Nos religaremos a África, através do Hip-Hop! Formaremos uma nação que conhecerá seu passado e terá condição de planejar melhor seu futuro. Os punhos pro alto não serão mais protestos e sim, símbolos de uma nova geração. Herdeiros de uma história que estamos escrevendo, frutos de uma história que escreveram de nós, quando Luis Gama venceu os obstáculos e rompeu a escravidão mental! Então, irmãos, preparemos nossos artefatos, nosso palanque será nas favelas, lugar de concentração do povo preto atual! E de lá, nos expandiremos e tomaremos os centros, nosso por herança, seremos vistos e não apenas tolerados! E dentre nós, nascerá um novo Zumbi dos palmares, surgirá, se levantará, subirá ao palco, dará um ok ao DJ pra soltar a base, tomará o microfone, e neste momento, os b.boys pararão, os Sprays ficarão sem utilidade. Todos olharão pra ele e, num canto uníssono, parafraseará grandes poetas, mas sua fala será original e verdadeira; “Agora sim. Enfim, Livres!”

Israel Neto (Réu): MC, Educador, Mobilizador Cultural e social. Trabalha há 3 anos na promoção e divulgação da lei 10.639/03, junto com o coletivo cultural Literatura Suburbana, no qual é coordenador. Nas horas vagas dos shows e aulas, exerce o trabalho de poeta da periféria, sempre unificando a literatura periférica, o hip-hop e a cultura afro! Estudante dos movimentos culturais e sociais, fácil de encontrar nas ruas e ong’s da Brasilândia e adjacências!

Michael Thompson (freestylee): Designer jamaicano, que vive atualmente em Easton, Pensilvânia nos Estados Unidos. Desenvolve projetos gráficos, principalmete posters com temas políticos como panafricanismo, contra as guerras, pela preservação do meio ambiente, contra o racismo e o preconceito



A rainha Jinga – África central, século XVII

Rainha Jinga

Rainha Jinga

Por Marina de Mello e Souza

Uma das personagens mais conhecidas da história centro-africana é a chefe de Matamba chamada pela crônica portuguesa e missionária de rainha Jinga. Nascida em torno de 1580, na chefatura do Ndongo, filha do principal chefe da região, que tinha o título de ngola a kiluanje, morreu em 1663, depois de uma longa vida ocupada em grande parte em guerrear com os portugueses. Estes haviam se instalado na ilha de Luanda e em algumas fortalezas ao longo do rio Cuanza a partir de 1571, quando Paulo Dias de Novaes chegou para ocupar a donataria que D. Sebastião havia lhe atribuído. A ilha de Luanda e as terras vizinhas eram freqüentadas pelos portugueses sediados em São Tomé, desde meados do século XVI, e por essa época os povos que ali viviam começavam a se tornar mais independentes do domínio exercido pelo mani Congo, chefe do estado mais poderoso da região e aliado dos portugueses desde o final do século XV.

Quando os portugueses chegaram para se instalar no Ndongo, este era chefiado por um irmão de Jinga, que resistiu às tentativas de ocupação de suas terras, seja pela guerra, seja pela imposição de tratados de vassalagem. A região era habitada por povos ambundos, agricultores e organizados em torno de linhagens, que foram duramente combatidos pelos portugueses, aliados aos imbangalas, povos guerreiros vindos do interior e do sul, que àquela altura perambulavam pela costa. Diante da superioridade militar dos portugueses fortalecidos pelos exércitos imbangalas, os ambundos cederam importantes porções dos territórios que até então ocupavam.

fonte: http://www.africaemnos.com.br/wordpress/

Somos racistas

13/08/2009 20:01:32

Por Leandro Fortes
Fonte: Carta Capital

Enquanto interessava às elites brasileiras que a negrada se esfolasse nos canaviais e, tempos depois, fosse relegada ao elevador de serviço, o conceito de raça era, por assim dizer, claríssimo no Brasil. Tudo que era ruim, cafona, sujo ou desbocado era “coisa de preto”. Nos anos 1970 e 1980, na Bahia, quando eu era menino grande, as mulheres negras só entravam nos clubes sociais de Salvador caso se sujeitassem a usar uniforme de babá. Duvido que isso tenha mudado muito por lá. Na cidade mais negra do país, na faculdade onde me formei, pública e federal, era possível contar a quantidade de estudantes e professores negros na palma de uma única mão.

Pois bem, bastou o governo Lula arriscar-se numa política de ações afirmativas para a high society tupiniquim berrar para o mundo que no Brasil não há racismo, a escrever que não somos racistas. Pior: a dizer que no Brasil, na verdade, não há negros.

Antes de continuar, é preciso dizer que muita gente boa, e de boa fé, acha que cota de negros nas universidades é um equívoco político e uma disfunção de política pública de inserção social. O melhor seria, dizem, que as cotas fossem para pobres de todas as raças. Bom, primeiro vamos combinar o seguinte: isso é uma falácia que os de boa fé replicam baseados num raciocínio perigosamente simplista. Na outra ponta, é um discurso adotado por quem tem vergonha de ter o próprio racismo exposto e colocado em discussão. Ninguém vê isso escrito em lugar nenhum, mas duvido que não tenha ouvido falar - no trabalho, na rua, em casa ou em mesas de bares - da tese do perigo do rebaixamento do nível acadêmico por conta da presença dos negros nos redutos antes destinados quase que exclusivamente aos brancos da classe média para cima – paradoxalmente, os bancos das universidades públicas.

Há duas razões essenciais que me fazem apoiar, sem restrições, as cotas exclusivamente para negros. A primeira delas, e mais simples de ser defendida, é a de que há um resgate histórico, sim, a ser feito em relação aos quatro milhões de negros escravizados no Brasil, entre os séculos XVI e XIX , e seus descendentes. A escravidão gerou um trauma social jamais sequer tocado pelo poder público, até que veio essa decisão, do governo do PT, de lançar mão de ações afirmativas relacionadas à questão racial brasileira – que existe e é seríssima. Essa preocupação tardia das elites e dos “formadores de opinião” (que não formam nada, muito menos opinião) com os pobres, justamente quando são os negros a entrar nas faculdades (e lá estão a tirar boas notas) é mais um traço da boçalidade com a qual os crimes sociais são minimizados pela hipocrisia nativa. Até porque há um outro programa de inserção universitária, o Prouni, que cumpre rigorosamente essa função. O que incomoda a essa gente não é a questão da pobreza, mas da negritude. Há contra os negros brasileiros um preconceito social, econômico, político e estético nunca superado. O sistema de cotas foi a primeira ação do Estado a enfrentar, de fato, essa situação. Por isso incomoda tanto.

A segunda razão que me leva a apoiar o sistema de cotas raciais é vinculado diretamente à nossa realidade política, cínica, nepotista e fisiológica. Caso consigam transformar a cota racial em cota “para pobres”, as transações eleitoreiras realizadas em torno dos bens públicos irão ganhar um novo componente. Porque, como se sabe, para fazer parte do sistema, é preciso se reconhecer como negro. É preciso dizer, na cara da autoridade: eu sou negro. Alguém consegue imaginar esses filhinhos de papai da caricata aristocracia nacional, mesmo os mulatinhos disfarçados, assumindo o papel de negro, formalmente? Nunca. Preferem a morte. Mas se a cota for para “pobres”, vai ter muito vagabundo botando roupa velha para se matricular. Basta fraudar o sistema burocrático e encher as faculdades públicas de falsos pobrezinhos. Ou de pobrezinhos de verdade, mas selecionados nas fileiras de cabos eleitorais. Ou pobrezinhos apadrinhados por reitores. Pobrezinhos brancos, de preferência.

Só um idiota não percebe a diferença entre ser pobre branco e pobre negro no Brasil. Ou como os negros são pressionados e adotam um discurso branco, assim que assumem melhores posições na escala social. Lembro do jogador Ronaldo, dito “Fenômeno”, ao comentar sobre as reações racistas das torcidas nos estádios europeus. Questionado sobre o tema, saiu-se com essa: “Eu, que sou branco, sofro com tamanha ignorância”. Fosse um perna-de-pau e tivesse que estudar, tenho dúvidas se essa seria a impressão que Ronaldo teria da própria cor, embora seja fácil compreender os fundamentos de tal raciocínio em um país onde o negro não se vê como elemento positivo, seja na televisão, seja na publicidade – muito menos nas universidades.

O fato é que somos um país cheio de racistas. Até eu, que sou branco, sou capaz de perceber.

03/08/2009

Audiencias públicas sobre projeto de mineração acontece na Bahia.


Companheiros,
enviamos-lhes primeiras notícias produzidas pela equipe técnica da Comissão Pastoral da Terra do Sul e Sudoeste da Bahia, descrevendo as audiências públicas realizadas pelo Instituto de Meio Ambiente da Bahia nas cidades de Brumado, Caetité, Malhada e Pindaí, para avaliar os relatorios de impacto ambiental - RIMAs da Bahia Mineração. Este projeto de mineração é o coração que move a ferrovia oeste leste e o porto sul. Sem a Bamin, não há sentido de se fazer o porto sul, nem a ferrovia.
Os resultados dessas audiências publicas coroam uma visão da sociedade civil sobre o Complexo Porto Sul - a visão de que este projeto não é viável, pelos inumeros problemas que causa, desde a mina até o seu escoamento pelo Sul da Bahia. As atas destas audiências irão confirmar o texto da CPT abaixo, pois registram todos os pronunciamentos realizados nestas audiencias, inclusive as que fizemos em Caetité, e Malhada.
É obvio que a luta é ardua e ainda não foi concluida. Mas, cada batalha que travamos nos anima a ganhar esta guerra. Os estudos sobre logistica que estamos realizando com pesquisadores da USP podem ser mais um passo na análise técnica criteriosa que precisamos fazer de modo a contestar e evitar os equivocos deste projeto.
Um forte abraço a todos,
Rede Sul da Bahia Justa e Sustentável
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O POVO DIZ NÃO AO PROJETO PEDRA DE FERRO
Comissão Pastoral da Terra - CPT do Sul e Sudoeste Baiano

Entre os dias 28 a 31 de Julho o povo da região que vai desde Malhada do São Francisco até Ilhéus esteve mobilizado, participando das audiências públicas promovidas pelo Instituto do Meio Ambiente- IMA para discussão do processo de licenciamento de localização do Complexo Minerário da BAMIN- Bahia Mineração LTDA. As audiências foram realizadas em ordem de data, do dia 28 a 31 de Julho, em Guanambi, Caetité, Malhada e no distrito de Guirapá, Pindaí.

A Bahia Mineração LTDA- BAMIN forjou uma imagem de empresa responsável e preocupada com a questão sócio-ambiental, porém por vezes deixou a mostra a sua verdadeira face quando na apresentação do empreendimento escamoteou os impactos negativos, e super dimensionou os “ditos” benefícios do negócio. As empresas SETE Soluções e Tecnologia Ambiental, e F&H Engenharia Ambiental, contratadas pela BAMIN para a elaboração dos EIA/RIMA(Adutora e Mina Pedra de Ferro), ao invés de apresentar os estudos com lisura e imparcialidade, foram, na verdade, garotos propaganda, fazendo o lobby da BAMIN, principalmente a SETE que, em nenhum momento apresentou de forma clara os impactos irreversíveis como perda de flora e supressão de comunidades tradicionais.
Foram recorrentes as intervenções acerca do rebaixamento em 300 metros do lençol freático. Nesse aspecto a BAMIN diminui a importância/magnitude do impacto, desconsiderando que em longo prazo esta ação poderá transformar a região em um deserto incurável, perdendo a possibilidade até mesmo de recorrer a poços por conta da falência dos aqüíferos. Ressalta-se que o rebaixamento não deve ser pensado isoladamente. Existem outros fatores que devem ser levados em consideração; a diminuição dos índices pluviométricos, o aquecimento global e o fato de o local solicitado para a mina está na principal área de recarga desses aqüíferos.

Vale dizer que quando questionada sobre a compra de terras e o decorrente desaparecimento das comunidades negras Antas Velhas e Palmito, a BAMIN, ironicamente, falou da “compra” como um negócio meramente legal e financeiro das partes, desconsiderando toda a riqueza imaterial, como saber popular, cultura/território, relações centenária de produção, e o fato daquela região ser, como diz o Sr. Joel, antigo morador da comunidade de Antas Velhas, um verdadeiro berçário de olhos d´água.

O poder público esteve presente nas audiências em todas as suas esferas (municipal, estadual e federal), o posicionamento do IMA demonstrou, por vezes, parcialidade confundindo-se com a própria BAMIN. Existe uma dúvida sobre qual dimensão que o IMA dará as inquietações e protestos presentes nas falas do povo nas audiências, que será base para a concessão ou não da licença de localização, avaliada pelo CEPRAM. Os poderes públicos municipais- Legislativo e Executivo, infelizmente e contrariando as falas da população, intervieram praticamente colocando a venda as suas cidades, utilizando como moeda de troca propostas que não passam de medidas compensatórias, fazendo o jogo da BAMIN, que ao invés de trazerem benefícios para o povo são, na verdade, projetos eleitoreiros. A CODEVASF, desconsiderando a lei de água, 9433- que fala do uso prioritário da água, sabendo que esta lei deve ser vista como política pública, pois a água é um bem público, e não medida compensatória, ou moeda de troca, se prostra diante da BAMIN, fazendo o mesmo jogo de interesse, com falas em defesa da empresa.

Nas quatro audiências, o povo disse NÃO ao projeto da mineradora. Houve momentos de grande comoção, como na fala do Sr. Daniel, da comunidade de Lajes do Sapato no município de Guanambi, quando pediu aos “senhores” da BAMIN um pouco de humanidade, que os senhores sejam um pouco humanos, eu sei que esse projeto vai ser implantado passando por cima de todo mundo. Em Caetité o Sr José Fernandes, da comunidade João Barrocas, atentou para o problema da falta de água e da perda da possibilidade de utilização de terras comuns, nos campos dos gerais que foram cercadas pela BAMIN. Em Malhada, o quilombola Osmar, do quilombo Pau D´arco e Parateca, destacou a importância do Rio São Francisco para a as comunidades ribeirinhas e afirmou que estão dispostos a lutar de qualquer forma para defender o Velho Chico. No povoado de Guirapá, no município de Pindái, diretamente afetado pelos rejeitos e estéril do empreendimento, onde a audiência publica só ocorreu devido a uma solicitação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, uma vez que não havia sido contemplado pelo calendário das audiências públicas, a participação popular superou a casa dos dois mil participantes, segundo cálculo da Policia Civil, mais uma vez o povo, de forma espontânea reafirmou o NÃO já dito nas três audiências anteriores. Com destaque, nesta ultima audiência, a expressão de indignação do povo foi tão grande que diferentemente do que ocorreu nos outros municípios onde o políticos locais se renderam à BAMIN, o prefeito e os vereadores foram obrigados a se calar. A presença da Promotora pública Luciana Khoury deu maior segurança à população e esclareceu quanto ao verdadeiro caráter da audiência, que até então o IMA afirmava que seria um momento apenas de tirar dúvidas. Drª Luciana afirmou que as audiências não seriam definitivas, ressaltando que o NÃO dito pela população teria que ser considerado.

A força da participação popular, a forma natural de manifestação do povo que, embora não tendo o conhecimento técnico dos assessores da BAMIN, expressaram através de poesias, de musicas e enchendo a mesa da audiência com os produtos da terra como verduras, alho, abobora, cachaça e outros, o verdadeiro potencial produtivo da região e afirmando que o minério não trará benefícios para o povo, ao contrário, irá concentrar ainda mais a riqueza às custas da usurpação dos recursos naturais gerando fome e miséria.

Diacisio Hundira e João pela CPT Sul/Sudoeste

14/07/2009

Novos projetos...

A ousadia de alguns profissionais da UESC e de atores sociais está resultando no projeto Interlocução entre UESC, comunidades afrodescendentes de Itacaré, Tupinambá de Olivença e escolas do ensino fundamental e médio.

Reunidos na UESC no último dia 10 de julho, vivenciamos o sabor da realidade cultural de cada representação,discutimos o papel de cada um no projeto, tentamos gerar um cenário que identifica nossas diferentes necessidades.

Como não poderia deixar de ser, muitas cobranças em relação à atuação da universidade pública do lado de fora de seus muros...

Mas também foi bastante emocionante, os canticos, as rodas de samba e capoeira, as louvações indígenas, o esforço e competencia dos profissionais do DFCH envolvidos...

Foi um momento bom que sinaliza um projeto que poderá dinamizar nossa atuação e conhecimento nos próximos meses...

As expectativas são muitas... Seguimos confiantes em dias enriquecidos de saber e cultura...










Destaque: a presença do povo tupinambá...

seus depoimentos denunciando a perseguição, as calúnias e a dor de serem tidos como criminosos apenas por que estão próximos a terem suas terras de volta...

Somos solidários ao povo tupinambá de Olivença e desejamos que a bravura desses guerreiros estejam sempre acima do cansasso e desesperança frutos de uma sociedade injusta.


O papel da mulher e a sexualidade em Kirikou e a Feiticeira por Celuy Roberta Hundzinski Damasio*

Kirikou e a FeiticeiraO diálogo cultural africano, travado na obra Kirikou e a Feiticeira, de Michel Ocelot, pode ser interpretado numa dimensão mais ampla, no tempo e no espaço, estendendo-se até nossos dias e a todos os continentes. Nas personagens principais, podemos observar as conseqüências dos atos masculinos incutidos nas mulheres. Temos duas visões divergentes (da mãe de Kirikou e da feiticeira Karabá) que, porém, apontam para o mesmo objetivo: a afirmação feminina enquanto indivíduo livre e independente.

Considerando a visão de Michelle Perrot, em sua obra “Les femmes et les silences de l’Histoire”[1], observamos que a História das mulheres foi sempre contada sob o ponto de vista do homem. O que se tem de menos influenciada é a oralidade privada, domínio em que as mulheres sempre puderam interferir e o fizeram de maneira marcante junto aos filhos e às crianças em geral[2]. “A memória das mulheres é verbo. Ela está ligada à oralidade das sociedades tradicionais que lhes confiavam a missão de narradoras da comunidade do vilarejo.” (PERROT, 1998, p. 17).[3]

Constataremos isso na mãe de Kirikou, primeira personagem da qual falaremos. Algumas vezes definida como dócil, silenciosa e, justamente por isso, fraca é, na verdade, a mulher que define todo o enredo, a que produz o Herói, não somente por tê-lo gerado, mas pela maneira como se refere a ele.

Desde o momento do parto, a mãe ordenou que ele nascesse e se lavasse sozinho, dando mostras de que o Herói, para sê-lo, precisa ser independente. A própria independência que ela adquirira, mesmo fazendo parte de uma sociedade com papéis estritamente bem definidos entre o homem e a mulher. Daí, podemos extrair, também, que vivendo sozinha e seu marido tendo sido “roubado” pela feiticeira, ela desenvolveu atitudes ditas “masculinas”, como a administração de sua tenda, de seu filho, sem interferências diretamente externas.

Poderíamos dizer que ela não se preocupava com a opinião alheia. O modo com que pensava e agia demonstrava a inteligência e a sapiência obtida pela experiência de vida. Era preciso sobreviver, tornar-se uma Heroína, com todas as características de uma mulher forte, contrariamente ao que se observa, por leigos, num primeiro olhar.

Assim, a personagem identifica-se com as mulheres do dia-a-dia, ditas “comuns”, que cuidam da casa, preparam a comida, educam os filhos com sabedoria, calma, interiorizando os acontecimentos para que deles tirem a lição de vida. Sensatas e decididas. Mulheres abandonadas pelos cônjuges, viúvas, sozinhas ou, ainda, as “viúvas de maridos vivos”[4]. Todas que, de uma forma ou de outra, não entregam-se às adversidades, mas as controlam para que sejam vencedoras.

Até na hora do nascimento de Kirikou, ou do instante em que pensou que ele morreu, o semblante da mãe era sereno e firme. Além disso, a primeira pessoa de quem ela falou para o filho foi de Karabá, a feiticeira, mostrando que não temia os inimigos e insinuando que ele era o “enviado” para salvar a aldeia. A idéia geral é que ele tem uma missão, podemos compará-la à de Jesus[5], onde a reação materna não difere muito da de Maria, no intuito de passar a idéia de que as mães devem, sempre, usar de sensatez, sabedoria e aceitação, sem esquecer, ainda, a preciosidade do silêncio.

Kirikou, logo após a vir ao mundo, questionou a mãe sobre seus familiares, todos homens, não interessou-se pelas mulheres, já instigando o conflito da obra: os homens que partem combater a feiticeira, são “comidos” por ela e nunca mais retornam aos seus lares.

A fortaleza e a capacidade de conduzir da mãe são inabaláveis, foi ela quem o informou sobre tudo o que acontecia na aldeia (transmissão da cultura geral pela oralidade) e quem lhe mostrou os problemas, como a fonte maldita. Ela o levou consigo, na ocasião da entrega do ouro à feiticeira, e não interferiu quando ele questionou a “Venerada”, ainda que outras mulheres os reprovassem. Mesmo no momento em que ela estava inclinada, por terra, defronte ao poder, demonstrou, por seu porte e movimentos, um ar superior em sabedoria. Indicou, também, o caminho que devia ser traçado até e além dos domínios de Karabá.

As mulheres do vilarejo não tinham mais esperança e mostravam-se rendidas[6], somente a mãe de Kirikou não se deixava levar, no entanto, sugeriu isso em silêncio, revelando-se tão grande e imponente quanto a “Poderosa”.

Observamos, claramente, no decorrer da obra, o sentido sexual translúcido nas ações. Antes de partirem para entregarem as riquezas, o bebê pede à mãe para ir junto, ao que ela responde: “–Você já é como os homens: quer ver Karabá, a feiticeira.” Demonstrando ser algo, estritamente, normal. Anteriormente, ele fora ao encontro de seu tio, com a intenção de ajudá-lo. A mãe, evidenciando que isso já estava traçado (porque ele é um homem) e querendo fazer valer o livre arbítrio, não o impediu.

Não obstante, quando o pequeno encontrou o tio, último homem da aldeia, que caminhava para encontrar-se com Karabá, escutou a afirmação de que o que iria acontecer não era algo para as crianças. É possível interpretarmos esse acontecimento como o ato sexual, que é o que se pode entender nas entrelinhas de todo o texto. Kirikou mostrou ter compreendido isso quando, face ao monstro da fonte, pensou em pedir ajuda ao tio, mas reconsiderou sua idéia, afirmando que ele não podia passar pela “porta estreita” para entrar na gruta, porque ele era grande, isso devia ser feito por alguém que é pequeno. Evidentemente, só uma criança livre de desejos poderia vencer o mal.

É num momento de repouso do menino que a mãe instigou uma reflexão sobre a maldade e o poder, fazendo com que o filho conhecesse a idéia estrutural e política da sociedade e da humanidade, em que, normalmente, o mais poderoso oprime fazendo com que os outros sofram.

Diante deste contexto, era preciso um coração puro, uma criança, para não ceder aos encantos de tal dama[7]. A mãe acreditou na capacidade de Kirikou, em sua astúcia, pois, além de tudo, ela o fizera assim e sabia que a união de um coração imaculado e da sabedoria dos anciãos (no caso, seu avô) podia fazer “milagres”. Foi, justamente, o portador de tal sabedoria que veio desmistificar a personagem de Karabá, possivelmente, porque ele havia ultrapassado a idade onde os desejos carnais falam mais forte, podendo, desta forma, ver as coisas de maneira clara, tais quais elas são. Mesmo quando afirmou que ela era malvada, houve uma explicação para o fato.

Outro tipo de mulher, apresentado na obra, é a que se diz esperta, mas não se mostra muito inteligente. Essa personagem aparece sempre dando opiniões incabíveis, maus conselhos, reclamando, ou tentando enganar, como no caso da recolhida do ouro. Entretanto, foi ela quem anunciou a boa nova de que a água voltou, confirmando a característica de quem fala muito: nem sempre fala coisas sábias ou aproveitáveis, mas está, constantemente, bem informado para poder passar adiante.

Tal personagem apresentou-se no primeiro lugar da fila, no momento de entregar o ouro para a feiticeira, contrariamente à mãe do Herói, posicionada em último lugar. Essa imagem simboliza a humildade, vista como fonte de sabedoria, contra a falsidade de quem está enganando mas não quer ser desvelada. “Assim, pois, os últimos serão primeiros e os primeiros serão últimos.” (Bíblia Sagrada, Mat. 20, 16).

Finalmente, o terceiro tipo de mulher, é Karabá. Qualificada, nas falas, como esplêndida, venerada e honrada, porém, mostrando-se autoritária, ditadora e malvada. Quanto ao físico, era bonita e vaidosa, cheia de ornamentos. Exatamente as características atribuídas às prostitutas, que devem estar sempre belas; são descritas, pelos amantes, como esplêndidas e honradas, mas pela sociedade em geral (ou mesmo por eles, quando encontram-se em público), são tachadas de malvadas por “roubarem” os homens das mulheres, e de “autoritárias” porque fazem deles “o quem bem querem”.

Temida, robotiza os homens, fazendo deles objetos que obedecem. Kirikou podia afrontá-la, pois sabia que, sendo pequeno, seria capaz de entrar onde nenhuma outra pessoa poderia. Ademais, ele não a temia estando ciente de que quanto mais o povo tinha medo, mais ela tornava-se poderosa. Não se pode dizer que ele é uma criança, mas que se fez assim para cumprir seu desígnio. Como prova, temos sua transformação no final da história.

Se considerarmos o fundo sexual da temática, podemos afirmar que ela não gostava das crianças porque sabia que seu poder sobre elas era limitado; da mesma forma, detestava as mulheres, pois julgavam-na atrapalhando suas relações com os homens. Desprezava os seres masculinos, por lhe terem “feito mal”: temos, aí, a idéia implícita de que fora violentada. Os homens “fincaram-lhe um espinho” que a fazia sofrer imensamente, ao ponto dela não ter coragem de pedir para alguém arrancá-lo. Dificuldade comparável às que os seres humanos têm para tocar nas feridas emocionais.

O avô explicou que ela não era uma feiticeira, mas alguém que tem uma reação provocada por uma ação. Essa reação não era boa porque a ação também não fora. A partir do momento em que ela se livrou do sofrimento, pôde voltar a ter bons sentimentos, uma mulher livre, sem problemas com o sexo oposto.

Para que isso acontecesse, temos um ponto importante a considerar: a cólera de Karabá diante do roubo das jóias implicou na decisão de primeiro recuperá-las, para depois preocupar-se com Kirikou. Esse ato deu forças à futilidade, à vaidade e à avareza, sentimentos que a emboscaram.

Ao livrar-se do mal, ela gritou, com tal intensidade que se fez escutar na aldeia. Esse grito representa o de todas que foram, de um jeito ou de outro, oprimidas pelos homens, violentadas, que carregaram, durante anos, um espinho nas costas, revoltando-se, às vezes, mas sem ter a coragem de dar o verdadeiro grito de liberdade. Aquele que veio romper o silêncio das mulheres e transformar a opressão, o ódio, em amor. Elucidando a vitória, ainda que depois de muita angústia.

Foi, nesse momento, que Karabá encarnou a verdadeira feiticeira, ela não tinha poderes sobrenaturais, todavia, o feitiço era o amor e, através dele, por um beijo, transformou Kirikou em um homem. Antes, contudo, ela resistiu, dizendo que sendo ou não feiticeira, não seria empregada de ninguém. O apaixonado contestou dizendo que não faria dela uma empregada, e ela retruca falando que todos os homens dizem isso antes de casar. O menino a convenceu de que era diferente dos outros homens e cresceu, indicando, nada mais, nada menos, que perdeu sua virgindade e que, pelo amor, pôde curá-la da dor, ensinando-lhe como é uma relação sadia entre sexos opostos. Como recompensa ou, simplesmente, conseqüência deste amor que fez as flores desabrocharem, ela “cuidou” dele, ornando-o, e ele a apresentou aos seus.

O último conflito foi a aceitação na comunidade, da mesma forma que é difícil para uma prostituta, ou qualquer mulher que fuja dos padrões estabelecidos pela sociedade, ser aceita. As pessoas não reconheceram o filho da aldeia e a mãe retomou seu papel vindo identificá-lo. A decisão do final feliz foi dela. As outras mulheres demonstraram sua revolta tentando matar Karabá e, somente, pararam quando viram os homens se aproximando. Elas recuperaram o que estava perdido. Os “filhos pródigos” voltaram para casa favorecendo o retorno da paz.

Concluiremos dizendo que as mulheres tiveram um papel fundamental durante toda a obra e, sobretudo, no início e no final da narração, fazendo com que as ações fossem, sutilmente, propiciadas por elas. Mãe e feiticeira foram o segmento uma da outra, completaram-se. Kirikou foi, meramente, o laço entre as duas e foi isso que o transformou em Herói. Ele libertou todos os outros homens porque “conquistou” para si, Karabá.

Referências:

Bíblia Sagrada. Ed. Ave-Maria, 131ª Edição, São Paulo, 1999.

HUNDZINSKI DAMASIO, Celuy Roberta. “Identidade, Igualdade, Diferença – o olhar da história” In: Revista Espaço Acadêmico, n° 79, dezembro de 2007.

HUNDZINSKI DAMASIO, Celuy Roberta. “Mulheres Fazendo a História” In: Revista Espaço Acadêmico, n° 58, março de 2006.

OCELOT, Michel. Kiriku e a Feiticeira, Ed. Paulinas Multimídia. Cultifilmes França/Bélgica, São Paulo, 2002

PERROT, Michelle. Les femmes ou les silences de l’histoire, Paris, Flammarion, 1998.



* Doutoranda em Literatura na Sorbonne e em Filosofia na Université de Marne-la-Vallée

[1] A resenha deste livro, intitulada Mulheres Fazendo a História, pode ser encontrada na Revista Espaço Acadêmico - n° 58 - março de 2006. Também pode ser consultado o texto Identidade, Igualdade, Diferença – o olhar da historia na REA – n° 79 – dezembro 2007.

[2] Daí a origem da fama da mulher como “faladeira” ou, até mesmo, “fofoqueira”.

[3] Tradução nossa.

[4] Esposas daqueles maridos que existem mas nunca estão presentes.

[5] Essa semelhança com a história bíblica confirma-se mais ao final do filme, quando o pequeno engana a serpente “vencendo-a”.

[6] Uma mulher, no episódio da canoa, deixa a faca cair (é Kirikou quem a pega pra ir salvar as crianças). As mulheres, em cenas similares, sempre mostram-se inertes diante das maldades.

[7] Podemos observar, também, que o velho habitante da aldeia, apesar de temeroso, não está sujeito à Karabá, provando mais uma vez que este “feitiço” pode ser traduzido como “sexo”, excluindo crianças e idosos.

09/07/2009

Pipoca - Mensagem para cravar em nossas almas!



(...)
A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível.

A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa — voltar a ser crianças! Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão — sofrimentos cujas causas ignoramos.Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUF!! — e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" — dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á".A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".

(Rubem Alves)