domingo, 14 de abril de 2013

Omo Ylú- o reencontro dos filhos dos tambores para sustentação de nossas raízes!


Mestres Lumumba e Jorge Rasta e o "Mestrinho" Hugo Xoroquê: a felicidade do primeiro Ylú pronto!

 Em 2008 quando cheguei em Campinas para o Encontro Nacional da Rede Mocambos, a única ideia que eu tinha do que iria acontecer, era que ia ter tambor, pois era uma informação que tinha no convite: “leve o seu tambor”. Cheguei na Casa Tainã e me envolvi em uma África que ainda não tinha tido contato, pois estava limitado ao meu afro regionalismo baiano, embora eu já tivesse contatos superficiais com outros segmentos de africanidade no Brasil.


Uma malandragem do Sul do País com a boemia preta do Mestre Giba Giba, a maestria de Mestre Chico, a importante oficina e repasses de saberes do Mestre Batista (para sempre vivo em meu coração) que me ensinou a fazer os grandes tambores de sopapo, os quais nunca tinha visto, ilustravam uma história de construção ancestral afro brasileira desenvolvida no sul do país paralelo à uma história de construção e luta de igual importância como a daqui da Bahia.


Nesse encontro, conheci o senhor dos 9 anéis d' Ogum, Mestre Lumumba, que unido às mestras Yalorixás, fechavam o ciclo de griôs de diversos estados do país e seus aprendizes. Mestre Tc e sua visão panorâmica de nossa história e instrumentos de luta, agregou nesse encontro as múltiplas versões das manifestações e tambores afrodescendentes, desde o samba de bumbo, até o moçambique, passando ainda pelo maracatu e suas alfaias, as quais me encantaram ao criar uma visão mais primitiva dos paulistões do samba reggae da Bahia e por, na sua originalidade, serem esculpidos como os antigos tambores de terreiros. Tive contato ainda, com os Tambores de Aço, da família Tainã, que fechava uma vivência fantástica de musicalidade, me deixando saudosista da banda de percussão que outrora participei com instrumentos acústicos, resultado de um laboratório de percussão, Abedé Orum


Voltei pra Bahia enfeitiçado com a versatilidade, variedade e poder dos tambores...


Nesse mesmo ano, caminhava na mata do Quilombo D'Oiti, com o grande conhecedor da mata Cumpadi (Cecílio), ele me mostrou uma árvore secular de aproximadamente 40 metros e com a circunferência de quase 12 metros, um Louro Óleo, árvore de onde é proveniente o óleo de copaíba. Esta árvore havia morrido e tombava sobre outras árvores com suas raízes já levantadas. Assim que vi aquela paisagem, transferi todo meu anseio pela construção de tambores, a priori pensei em alfaias, o que conflitava com as ideias de Cumpadi de fazer uma canoa ou um pilão pra moer dendê, também pensamos em fazer tudo, por que a árvore era imensa e daria pra ter várias práticas com sua madeira. Entretanto, em minha mente reinava principalmente, a ideia dos tambores e a possibilidade de distribuí-los pelos nossos núcleos de formação, como um "totem" da Rede Mocambos.

Griots da Mocambos contemplando a grande árvore




 A ideia daquela árvore virar muitos tambores foi transferida para muitas pessoas que visitavam nosso quilombo, ao se depararem com aquela imensa árvore no caminho tradicional de  nossa trilha. No Fórum de Turismo Ori Mole, em agosto de 2011, ao visitar a árvore com Mestre Lumumba, Mãe Beth de Oxum e sua família, recebi do Mestre uma resposta emocionante e motivadora de que, a partir daquele momento ele encaminharia energias e esforços para executarmos esse projeto.
No pé do baobá do quilombo: sonhos sendo plantados!

Em 2013, como consequência da premiação do Edital de Interações Estéticas da FUNARTE / MINC, de residência em Pontos de Cultura, o Mestre Lumumba retorna à Casa do Boneco com as condições de realização do projeto Omo Ylú – o reencontro dos filhos dos tambores. Cronologicamente eu, Mestre Lumumba e Hugo Xoroquê, formamos uma corrente de 3 gerações. Lumumba sexagenário, eu, quarentão, Hugo aos 18 anos, expressando também o ciclo de passado – presente – futuro, princípio básico da educação africana. Hugo se tornou um afilhado, tanto do Mestre quanto da proposta em si: a ele foi entregue a responsabilidade maior do aprendizado e execução de algumas etapas do projeto. 



Produção de ferramentas para esculpir os tambores
Inicialmente foi desenvolvida uma oficina de construção de ferramentas apropriadas ao trabalho. Foram feitos inchós, machados curvos pra escavação, formões a partir do desenvolvimento de técnicas de forjaria e têmpera para o corte das ferramentas, tendo como resultado o aprendizado da confecção e o conjunto de ferramentas necessárias para cada aprendiz. Foi removida a madeira da Fazenda Modelo Quilombo D'Oiti, com o devido cuidado para não rachar. Foi cortada em pedaços para fazer os instrumentos. As três primeiras “toras “ da base da árvore foram trabalhadas na forma de tambores da etnia ijexá, conhecidos como Ylú-ni'lá (tambor grande), formando um trio de ijexá.



A troca de saberes vivenciada no processo de identificação da árvore, da confecção das ferramentas, coleta da madeira, convívio coletivo, do comer, beber e dormir junto, trouxe no nosso contexto, um fortalecimento da gestação da voz coletiva, da voz primeira que atingiu todos os povos no princípio evolutivo do homem: a comunicação.

O mestre, o mestrinho e Cumpadi tratando a madeira (esculpindo o tambor) na mata do Quilombo D'Oiti
O primeiro Ylú sendo concluído
O projeto encontra-se a todo vapor, concentrando nesse momento as vivências no Ponto de Cultura Associação do Culto Afro Itabunense – ACAI (coordenado pelo queridíssimo Lula Dantas) e planejando a sua expansão para o Assentamento Terra Vista, em Arataca e nas Aldeias Pataxó Hãhãhãe e Tupinambá de Serra do padeiro.

Na Acai, no sábado, dia 13 de abril, ocorreu uma primeira celebração com um Ylú já pronto numa agenda conjunta com a reunião do Conselho Territorial de Cultura, que reuniu diversos grupos culturais, comunidades e colaboradores. Ali, ao ver nascer um Ylú gigante, chamado imediatamente pela Yalorixá Mãe Lúcia, aos seus 70 anos de axé, de “Boca do Mundo”, numa alusão à uma expressão de comunicação ampla, nos traz um sentimento de sustentação de nossas raízes, um aprofundamento na execução prática dos saberes orais, recebendo um filho coletivo, que garantidamente viverá por séculos, simbolizando a continuidade de uma forma africana de ser.

Texto: Jorge Rasta
Contribuições: Mestre Lumumba
Edição: Say Adinkra

Mestrinho Hugo, completou 18 anos,  numa bonita caminhada de saberes!

A Felicidade Guerreira do Mestre Lumumba: no axé sempre!


O grande tambor Ylu comandando a celebração da ACAI: Jorge Rasta, Lumumba, Hugo e o querido Lula Dantas

Para medir um pouco do trabalho compare um formão simples que usamos para esculpir um djembê e o formão redimensionado para esculpir um Ylú... verdadeiras ferramentas de Ogum!

2 comentários:

Aluízio Jeremias - Arte, Ritmo, Movimento disse...

Tambor, Tambora. Quando o tambor toca o tambor a pulsação ecoa no coração da nossa ancestralidade e ativa os sentidos, e os sentidos nos elevam pro universo da energias mais puras e nos colocam em sintonia com todas as áfricas dentro de nós. todo asé pra nós.
tc

Cauê Rocha disse...

Tambor grande... coração grande...

Batidas de admiração...