sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Abdias Nascimento - Memória Negra - um filme documentário estremecedor e emocionante

Orgulho e dignidade da raça *
Poucos nomes se destacam na defesa dos valores de igualdade e combate ao preconceito contra os afro-descendentes como o do paulista Abdias Nascimento, que é examinado no documentário baiano que leva o seu nome, subtitulado de Memória Negra. A fita é dirigida pelo pesquisador e fotógrafo Antonio Olavo .

O filme é conduzido a partir de uma entrevista gravada com o próprio cinebiografado, do alto dos seus 94 anos (nasceu em Franca (SP), em 14 de março de 1914). Abdias Nascimento – Memória Negra usa as próprias palavras do entrevistado para definir a sua trajetória. Ao discurso dele se somam imagens de arquivo e referências que vão pontuando este perfil. Exilado pela ditadura militar, ficou fora do País entre 1968 e 1978. Quando regressou, passou a ter uma atuação direta na política. Foi deputado federal e senador da República. Há dois anos, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Brasília.


SINCERIDADE – Memória Negra segue um discurso linear, que coloca os temas numa ordem cronológica. Uma cuidadosa pesquisa de imagens vai ilustrando os muitos fatos históricos em que esteve envolvido o cinebiografado.Num segundo momento, o filme se aproxima do homem por trás do mito e encontra na figura de Abdias Nascimento um interlocutor de jeito simples e sinceridade absurda.


Num dos momentos mais fortes do registro, Abdias é indagado sobre os possíveis erros políticos que cometeu em sua vida tão cheia de acertos e entrega às causas da justiça racial e liberdade de expressão. Neste ponto, o entrevistado pára. Faz uma pausa para pensar no assunto e depois repete como que refletindo: " E r re i ? " .


A edição, co-assinada pelo próprio Antonio Olavo, sabe respeitar estes momentos de respiração do entrevistado e preserva imagens valiosas. Numa delas, Abdias com jeito de menino observa com um rápido olhar de desejo uma cumbuca que lhe é servida, cheia de torresmo.O homem racional e sensato é quem fala primeiro, censurando a idéia do petisco, já que a gravação está em curso. A voz de alguém da equipe soa como uma liberação, avisando que a cumbuca até ficou bonita no enquadramento e que não atrapalha em nada a filmagem. O personagem arremata: "Ficou bonita no quadro, mas vai ficar melhor ainda na boca".Momentos assim revelam os traços mais humanos e sintetizam a opção por uma narrativa leve e despojada. A impressão que se tem é de estar diante de uma conversa informal com alguém grande demais para caber em hora e meia de filme.Antonio Olavo resolve isso muito bem, já desde a cena inicial que mostra Abdias Nascimento imenso em sua aura, sentado numa cadeira de rodas, passeando por uma exposição. É a visão de um rei negro, que depois, em suas falas, contando a sua história tão peculiar, esclarece ao público de onde vem a sua majestade .
* Texto de JOÃO CARLOS SAMPAIO

Um comentário:

Associação de Educação, Arte e Cultura Popular Casa do Boneco de Itacaré disse...

A universidade me deixou muitas màgoas, uma delas, foi nunca ter me apresentando Abdias Nascimento. Aprendi sobre tantos teòricos e revolucionàrios, e sò conheci Abdias quando saì de là... que barbaridade...