quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Nossas referencias negras...

SOLANO: O VENTO FORTE DA ÁFRICA

Texto de Bruno Ribeiro

(Estátua de Solano Trindade, em Recife, PE)
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Vivo estivesse, Solano Trindade completaria esse ano 100 anos de idade. Nordestino, negro e pobre, nascido de pai sapateiro e mãe doméstica, o menino cresceu com o preconceito na barra das calças, feito sombra. A descoberta da poesia, na adolescência, foi sua libertação. Jovem estudioso, cedo descobriu a leitura. E cedo também descobriu que poderia (e deveria) cultivar a consciência política – uma descoberta que mudaria os rumos de sua vida e o levaria a ser um dos artistas negros mais influentes de seu tempo.
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Nascido em Recife, no dia 24 de julho de 1908, Solano Trindade ajudou a fundar a Frente Negra Pernambucana, em 1936, que posteriormente daria origem ao Centro de Cultura Afro-brasileiro. A primeira publicação do coletivo trazia o pensamento de Solano a respeito da urgência de se organizar os intelectuais negros: “Não faremos lutas de raça. Porém, ensinaremos aos nossos irmãos negros que não há raça superior nem inferior, e o que faz distinguir uns dos outros é o desenvolvimento cultural”.
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Solano atuou em várias frentes artísticas, mas destacou-se como teatrólogo e poeta. A fase mais intensa de sua carreira aconteceu em Embu, município paulista que conheceu durante a apresentação de uma peça de teatro. Encantado pelo clima e pelas pessoas da cidade, mudou-se para lá e desenvolveu trabalhos dos mais variados. Dentre os livros mais importantes que escreveu nesse período estão Poemas de uma vida simples e Cantares do meu povo – ambos de poesia. Tem Gente com Fome, seu poema mais conhecido, foi censurado na época da ditadura e rendeu-lhe uma temporada na prisão.
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Roger Bastide, que não chegou a conhecer Solano, fez um interessante estudo sobre a poesia afro-brasileira e concluiu que a poesia negra, até então, havia sido escrita apenas por poetas brancos como Raul Bopp e Jorge de Lima. Solano Trindade foi o primeiro poeta negro a trazer para a nossa literatura um componente essencial de sua etnia: o anseio de liberdade latente em sua ancestralidade. Em sua obra, a escolha dos temas está voltada para a realidade das minorias marginalizadas e para a evocação das tradições populares dos negros no Brasil. Apesar de manter uma postura crítica quase permanente, a poesia de Solano é docemente ingênua, ritmada, lúdica, sentimental e – detalhe importante – plena de humor, uma marca tão forte e constante de nossa cultura.
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Pode-se dizer que Solano Trindade foi um dos responsáveis por acender o estopim do orgulho negro em sua geração e nas posteriores. Carlos Drummond de Andrade o considerava “um genial poeta”. Darcy Ribeiro dizia que Solano era um dos brasileiros mais importantes do século 20. Ele próprio se definia assim: “Sou blues, swing, samba, frevo, macumba e jongo; ritmos de angústia e de protesto, para ferir os ouvidos”. Em 1976, a Vai-Vai desfilou no Carnaval de São Paulo com um enredo em sua homenagem. Os versos de Geraldo Filme ainda ecoam: "Canta meu povo/ está na rua o saudoso poeta/ a noite é sua".
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É um mito dizer que o poeta morreu como indigente, abandonado no leito de um hospital público. Em uma entrevista que fiz com sua filha Raquel Trindade, em 2002, ela assegurou que o pai foi bem cuidado pela família e pelos médicos que o atenderam. Mas, apesar de toda sua grandeza na cultura nacional, Solano (cujo significado do nome, em latim, é “vento forte do levante”) morreu esquecido pelo poder público, pelos intelectuais e pela classe artística. Foi enterrado sem pompas, em 1974, no Rio de Janeiro.
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Levanto-me, solenemente, desde o meu quilombo virtual, e ergo um brinde ao grande brasileiro Solano Trindade, poeta do povo e herói civilizador. Este nome jamais poderá ser esquecido por nós. Mojubá!

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